Ceará enfrenta risco de ter racionamento em abril

O mês de fevereiro trouxe desânimo para os cearenses; choveu apenas 69 milímetros, dos 150,4 esperados

O sinal de alerta foi dado: caso as previsões de chuvas continuem abaixo da média e as obras prometidas não sejam finalizadas, há risco, sim, de racionamento de água já a partir do próximo mês em alguns municípios do Interior. Os mais críticos são, conforme a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), Crateús, Quiterianópolis, Beberibe e Pacoti. E a situação pode piorar já nos próximos dias; choveu apenas 69 milímetros, dos 150,4 esperados, metade em relação ao ano passado, de acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme). Fortaleza estaria fora de perigo, por enquanto. Em Recife, por exemplo, já começou o racionamento, um rodízio.

Localizada no Sertão Central, Quiterianópolis é uma das cidades que pode passar por racionamento já a partir do próximo mês. Os moradores e animais do lugar costumam ser castigados devido aos efeitos da seca.

Em Alcântaras, 221km de Fortaleza, moradores contam que já está havendo corte preventivo e que a distribuição só está sendo fornecida no período da manhã. O clima na cidade é de cautela, o temor é de colapso geral, afirma o morador e presidente da Entidade Cooperativista Sustentável (Ecos), Freire Caetano Filho. "O açude que abastece a cidade está quase seco, só deve ter uns 3% da sua capacidade. Teve dia até que, ao invés de água, veio só lama nos canos, tamanha era a secura. Se não chover, tenho certeza que daqui há dois meses a gente entra sim em crise, colapso geral. Estamos apreensivos".

A situação de Alcântara não é muito diferente das demais. Mesmo com a seca, a população não colabora economizando. "As pessoas aqui da região não têm consciência de que a água é pouca e pode, sim, acabar. É um monte de gente jogando água fora, os lava-jatos funcionando a todo vapor e a construção civil não para de subir casa. Quem sabe o racionamento ajuda um pouco", afirma Freire Caetano Filho. Atualmente, 174 dos 184 municípios cearenses estão em estado de emergência. A previsão para os próximos dois meses, segundo a Funceme, aponta probabilidade de 40% para as precipitações ficarem abaixo do normal, de 35% para chuvas em torno da média e apenas 25% de chover acima da média prevista.

Conforme monitoramento da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), 74 açudes estão com volumes inferior a 30%. E muitos são os reservatórios em situação crítica. Na Bacia do Médio Jaguaribe, por exemplo, o açude Madeiro, em Pereiro, segue com 2,26%. Na Bacia de Crateús, açude de Colina, em Quiterianópolis, está com apenas 5,52% da capacidade.

Em meio a toda uma situação de desabastecimento, a pergunta segue: por que Fortaleza não estaria, então, em crise também? Na Capital cearense, no posto de Castelão, foram registrados apenas 103,2 milímetros, enquanto a média mensal era de 158 milímetros para fevereiro.

Os municípios mais atingidos foram Barroquinha, Litoral Norte, com 248 milímetros, enquanto a média é de 200,6 milímetros e Pacatuba, com 227,3 mm.

Castanhão

Para o professor doutor do departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC), Marco Aurélio Holanda de Castro, Fortaleza só não está pior por conta de ligações com demais bacias além das metropolitanas. "Se não fosse o Castanhão, o Ceará inteiro já deveria estar beirando um colapso hídrico geral", afirma. Ele não acredita em medidas palitavas, em carros-pipa e apenas nas cisternas, há que se ter demais ações como a transposição do Rio São Francisco e depois o Cinturão das Águas.

"Todo o Nordeste tem uma escassez hídrica histórica. O Ceara é um dos estados que mais tem extensão no semiárido. Nós temos índices de pluviosidade muitos baixos. Por conta de toda essa conjuntura, o Estado não pode ser dar ao luxo de só depender das chuvas, tem que ter ações, alternativas. O Castanhão é que garante a água bruta de Fortaleza", afirma Holanda.

Cidades como Recife, segundo ele, estão racionamento porque dependem quase e exclusivamente de suas bacias metropolitanas, diferente de Fortaleza.

Para Josineto Araujo, diretor de operações da Cagece, racionamento está descartado para a Capital, mas cidades do Interior estão em situação crítica. "Estamos assinando contrato de perfuração de novos poços. Estamos fazendo tudo para evitar racionamento, mas se não chover até abril teremos mais chances de racionar sim". Sobre Alcântaras, ele detalha que não há ´racionamento´, apenas uma ação educativa de combate ao desperdício.

Cisternas serão implantadas

Com a intenção de auxiliar famílias cearenses que sofrem com a Seca, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) irá implantar 26.228 cisternas no Estado do Ceará. A previsão é que tudo esteja pronto num prazo de até dez meses.

A operação começou ontem em Tauá. Serão beneficiadas famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal Foto: Waleska Santiago


A operação para levar cisternas às famílias cearenses começou ontem (4), em Tauá. A primeira fase da implantação é de responsabilidade das equipes de técnicos e assistentes sociais, que vão checar as residências dos inscritos. Serão beneficiadas famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal.

Durante as visitas, os agentes irão observar, também, se as casas contam com abastecimento, de água e se o teto é adequado, pois o mesmo não pode ser de palha. Municípios como Sobral, Redenção, Capistrano, Russas e Mauriti receberão mais de duas mil cisternas, cada um. O município de Horizonte receberá 574 cisternas e Morada Nova, 1.300. Outros locais do Ceará estão sendo mapeados pelas equipes do Dnocs para que também possam receber a operação.

As mais de 26 mil cisternas do Ceará fazem parte do total de 60 mil unidades que o Dnocs vai implantar no Nordeste. A verba é oriunda do Ministério da Integração Nacional, que vai investir R$ 255,9 milhões na ação pelo Programa Água para Todos do Plano Brasil sem Miséria, do governo federal. As 60 mil cisternas compreendem, além do Ceará, os estados do Nordeste. A distribuição das 12 mil unidades na Bahia já foi iniciada. Na Paraíba serão implantadas 4 mil cisternas. Já em Pernambuco, serão instaladas 5.772, e, no Rio Grande do Norte, duas mil cisternas.

Falta de chuva

A iniciativa, porém, levanta uma questão a respeito da utilidade dessas cisternas, já que, em 2013, no Ceará, o nível de chuva tem sido abaixo da média. Sobre o assunto, o coordenador do programa Água para Todos no Dnocs e engenheiro da Diretoria de Infraestrutura Hídrica, Elias Benevides, afirma que, caso não haja chuva como o esperado, as cisternas serão preenchidas com água de carros-pipa.

"A finalidade é fazer com que a famílias não sofram nem precisem se deslocar para conseguir água. Se a chuva não vier, estaremos dispostos para suprir a falta de água com carros-pipa", diz. Benevides acrescenta que cada cisterna possui capacidade de armazenamento de 16 mil litros, quantidade suficiente para que uma família tenha água reservada durante um período de seca ou dificuldade.

SAIBA MAIS

Reservatórios abaixo de 10%

1. Jenipapo II (Baixio) 4,81%
2. Realejo (Crateús) 9,25%
3. Poço do Barro (Morada Nova) 4,53%
4. Patos (Sobral) 7,77%
5. Colina (Quiterianópolis) 5,52%
6. Broco (Tauá) 5,57%
7. Penedo (Maranguape) 2,74
8. Jerimum (Irauçuba) 6,85%
9. Pirabibu (Quixeramobim) 3,4%
10. Souza (Canindé) 7,8
11. Desterro (Caridade) 5,39%

Fonte: Cogerh

DN

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